Neste blogue pode ler os primeiros capítulos deste romance.

Capítulo 9

Tomás lia uma revista, tranquilamente, no comboio que fazia o trajecto Porto-Lisboa mas o seu cérebro estava relutante em assimilar mais palavras. Escolhera um artigo sobre o poder de decisão. Decida antes que decidam por si, era o título que dava como exemplo grandes decisões tomadas por algumas personalidades famosas como, por exemplo, a decisão de Winston Churchill, de aceitar a proposta americana de avançar com o desembarque das tropas na Normandia, no famoso Dia D, a 6 de Junho de 1944, e assim pôr fim à II Guerra Mundial ao invés de adiar a operação militar até obter condições mais favoráveis. Decidiu pousar a revista e olhar para a paisagem que ia desaparecendo, através da janela do comboio. Pouco passava das nove horas da manhã. O céu estava carregado e algumas gotas leves começaram a bater suavemente no vidro da janela. Ao ver o mau tempo, Tomás animou-se com a esperança de, muito em breve, poder sentir o clima soalheiro de um belo país da América do Sul, como o Brasil. Recordou o artigo da revista que acabara de pousar, ao seu lado, numa poltrona vazia. Queria dar todos os passos certos para que tudo corresse bem, desde o início, em relação a esta nova oportunidade que surgia na sua vida. Para que isso acontecesse, sentia que devia afastar as más memórias do passado recente e optar pelo esquecimento. Discutira este assunto na noite anterior, com a Maria. Esta foi-lhe dizendo que não se devia esquecer completamente o passado, a família, a pessoa amada, ou os amigos. Estes deviam, segundo ela, estar sempre presentes, principalmente nos momentos difíceis, pois eram eles que davam força e ânimo. Porém, Tomás sabia como Maria chorava ou perdia o ânimo assim que falava com a família durante os seus meses de estudos no estrangeiro.
"Lembras-te como ficavas depois de estar ao telefone com a tua mãe quando vivias em França?"
Maria não sabia o que dizer. Momentaneamente, sentiu aquele vazio no estômago que a lembrou da dor da saudade.
"Mas adoro a minha mãe, sabes bem a relação que temos." - defendeu-se.
Tomás falava em esquecimento como forma de conseguir encarar positivamente o futuro, reduzindo os efeitos perniciosos da nostalgia e da saudade. Não queria abandonar a ideia de que controlava o seu futuro. Era uma ideia que lhe trazia conforto, dentro da incerteza do que seria o futuro. Mas, por vezes, lembrava-se de Maria que defendia os esquecidos e nunca abandonava as suas raízes e o passado. Maria não queria que tudo o que houve entre ela e Tomás caísse no esquecimento e, muito menos, a bonita amizade que tinham um pelo outro.
No mais famoso café do Porto, o Majestic, com os seus tectos altos e a sua magnífica decoração art-deco do início do século XX, Tomás e Maria conversavam, sentados frente a frente. Inadvertidamente, Maria passou a mão pela orelha e pelo seu brilhante brinco comprido. Tomás não conseguiu deixar de reparar nesse gesto simples.
“A vida é feita de várias etapas. Se não sacudirmos bem o pó dos sapatos à entrada para cada nova etapa fica tudo mais difícil para todos. Além do mais, nesta vida não podemos ficar eternamente presos às pessoas e ao passado, muito menos quando queremos iniciar uma nova etapa." – reflectia Tomás.
Maria voltou a passar a mão pela orelha e pelo brinco e, em seguida, atirou o seu longo cabelo para trás das costas. Tomás reconheceu aquele gesto. Era um gesto que Maria não usava nos primeiros tempos em que namoraram. Tomás, agora sentado no comboio em direcção a Lisboa, ainda hoje se perguntava onde foi que Maria arranjou aquele gesto.
O mistério, afinal, era bastante simples. Esse gesto era o mesmo que mãe de Maria fizera, alguns anos antes, quando conhecera o seu padrasto e, antes disso, o pai de Maria. Maria recordava-se apenas de ter visto esse gesto quando, depois de dar um beijo de despedida ao seu padrasto, à porta de casa, a sua mãe colocava a mão na orelha, depois no brinco, atirava o cabelo para trás e ele dizia, fixando-a nos olhos, "Telefono-te amanhã.". Qual o verdadeiro significado daquele gesto? Involuntário, o que o tornava ainda mais belo e mais poético, pois provinha de um fundo inteiramente irracional e instintivo, era uma forma de tentar enfeitiçar aquele que nós vemos partir para que volte rápido. Significava saudade, carinho, sensualidade, sedução e o laço forte que liga Maria a sua mãe.