Neste blogue pode ler os primeiros capítulos deste romance.

Capítulo 6

Vítor e Mara atravessaram a famosa Golden Gate conversando animadamente e observando a magnífica paisagem. Alguns minutos depois chegaram a Sausalito.
“Essas são as casas de que me falaram. São realmente muito bonitas e singulares.” – disse Mara. – “Olha que legal, a garagem fica no último andar!”
A estrada por onde passavam curvava em declive, serpenteando pela encosta da baía. Junto à estrada, as moradias tinham uma invulgar arquitectura, motivada pelo facto da estrada ficar ao mesmo nível do piso superior das moradias. A mais peculiar característica, como Mara rapidamente notou, era que estas moradias possuíam, quase todas, três pisos, sendo o piso superior, ao nível da rua, onde se situava a garagem. Do lado das traseiras, as casas disfrutavam de uma maravilhosa vista para a baía de São Francisco. Todas as moradias aparentavam ser caras e luxuosas, não só pelas vistas mas também pelos automóveis estacionados nas garagens.
“Deve ser muito bom morar nessas casas.” – comentou Mara.
“Deve ser, realmente.” – concordou Vítor. – “Tenho um cliente, um grande empresário da indústria vinícola de Napa Valley, que mora aqui perto. Talvez ele não se importe que lhe façamos uma visita surpresa. Não costumo aparecer na casa dos clientes, sem ser convidado, mas hoje tenho uma boa razão. Acho que posso abrir uma excepção.”
Os olhos de Mara brilharam como os de uma criança quando os pais lhes dizem que talvez possam comprar o brinquedo que elas mais desejam.
“Isso seria maravilhoso! Tem certeza?”
“Claro” – respondeu Vítor, prontamente. – “A casa dele fica já ali à frente.”
Vítor pensou que, àquela hora, provavelmente o empresário estaria ausente mas, para sua surpresa, Bill Maxwell não só estava em casa, como até os recebeu, de forma extremamente simpática e amável. Vítor ficou radiante por, mais uma vez, tudo se conjugar a seu favor: estava a conseguir impressionar Mara e, ao mesmo tempo, estava a fazer amizade com Bill Maxwell, o que poderia fazer maravilhas pelo seu negócio.
A casa estava decorada com muito bom gosto. Móveis e arquitectura de estilo moderno. Nas paredes de tons suaves, havia quadros com algumas paisagens urbanas de São Francisco e um retrato a óleo onde figurava Bill Maxwell com a esposa e as duas filhas. Contudo, eram as janelas que mais atraíam a atenção dos visitantes. Atrás delas estava a grande riqueza daquela moradia: a vista para a baía. Os três atravessaram a sala e desceram os degraus que davam acesso a uma espaçosa varanda. O dia estava glorioso e os raios de sol espalhavam-se sobre as águas calmas da baía. Na varanda, duas mulheres conversavam, abrigadas sob um guarda-sol e sentadas a uma mesa, sobre a qual havia dois copos de vinho e uma garrafa. As duas mulheres voltaram a cabeça ao sentir a presença de Vítor, Mara e Bill Maxwell que se aproximavam.
“Mr. Vieira, Miss Mara, a minha esposa, Martha e a minha filha mais nova, Jane.” – apresentou Bill Maxwell. – “Sentem-se, por favor.”
Vítor, com astúcia, percebeu que reinava um clima descontraído na casa e que não seria oportuno falar de negócios. Com encanto e gentileza, soube agradar a todos, arrancando alguns sorrisos e encetando interessantes conversas sobre variados assuntos. Bill, sempre sorridente e amável, também contribuiu activamente para uma atmosfera agradável. A certa altura, resolveu abrir uma nova garrafa de vinho para os visitantes e convidou Vítor a conhecer a sua adega, deixando Mara na companhia de Martha e Jane.
“Esta é uma pequena amostra que guardo dos vinhos que mais me fascinam.” – declarou Bill, ao entrar na adega.
Vítor olhou para ele e viu um homem com os seus sessenta e tantos, uma barriga considerável, bigode bem aparado e o aspecto de alguém que aprecia as coisas boas da vida. No brilho dos seus olhos e na sua expressão havia uma alegria e uma felicidade especiais que saltavam à vista de Vítor.
“O que lhe parece este vinho, Mr. Vieira?” – perguntou o dono da casa, segurando nas mãos um excelente vinho do Porto com cinquenta anos.
“Uma excelente escolha, Mr. Maxwell.” – respondeu Vítor.
“Sabe, hoje é um dia especialmente importante para mim. Infelizmente, não posso compartilhar consigo o assunto que tanta felicidade me traz mas posso oferecer-lhe, com prazer, um belo vinho do Porto. Sabe como é... há assuntos do nosso trabalho que não podemos contar nem à nossa família e o assunto que me enche de uma enorme felicidade hoje, é um desses segredos. Talvez revele mais tarde à minha esposa mas ainda não sei se o devo fazer.”
“Compreendo perfeitamente, Mr. Maxwell.”
“Pode-me tratar por Bill” – deliberou Bill Maxwell, começando a sentir-se à vontade com ele. – “Vamos então abrir este belo vinho do Porto, Vítor?”