“Estou...?”
“Sou eu Tomás, o Vítor. Tudo bem?”
“Sim, tudo bem. Como vão as coisas por aí?”
“Esta cidade é realmente demais!” – exclamou Vítor, do outro lado da linha.
“Então porquê? O que é que aconteceu?”
“Aqui tudo pode acontecer a qualquer instante, Tomás! Esta cidade é cheia de vida!”
Tomás atravessava um momento delicado na sua vida e o seu estado de espírito tendia a agravar-se dolorosamente cada vez que o irmão lhe ligava com todo aquele entusiasmo esfuziante. Vítor descreveu as suas últimas aventuras e impressões da cidade de São Francisco. Tomás deixou que o irmão desse largas a todo o entusiasmo aguardando o momento em que este fosse vencido pelo cansaço. Sentia como se tivesse sido atingido na alma pelo mais afiado dos espinhos a cada pico de entusiasmo do seu irmão. Sabia que não se devia sentir dessa maneira e que não havia intenção da parte do irmão em feri-lo. Tentava convencer-se que Vítor pretendia apenas partilhar consigo os seus momentos de felicidade. Culpava-se por sentir inveja mas depois dizia a si próprio que não podia ser inveja o que sentia, pois nunca fora invejoso. Era algo mais profundo e vasto, porém, talvez por isso mesmo, impossível de definir correctamente.
“Estes dias conheci o bar frequentado por Jack Kerouac, considerado o pai da Beat Generation e um dos ícones de São Francisco e, no fim-de-semana passado, consegui, finalmente, arranjar tempo para visitar a famosa prisão de Alcatraz que aparece em vários filmes americanos. É incrível! Ah, é verdade... estou a combinar com uns amigos uma visitinha a Las Vegas daqui por uns meses. Dizem que é uma visão de sonho, aquela cidade! Tomás estou a adorar este país e esta cidade!” – prosseguia Vítor.
Tomás ia soltando, a custo, pequenos murmúrios unicamente para sinalizar que se mantinha do seu lado da linha mas, por dentro, era dor que sentia porque o entusiasmo do irmão o impelia, de alguma forma, a sofrer ainda mais pela sua actual situação.
“Imagina que fui à Biblioteca, agora na hora do almoço, e conheci uma jornalista brasileira que está a fazer uma matéria sobre São Francisco e sobre os vinhos de Napa Valley.” – prosseguiu Vítor.
“Biblioteca...?” – perguntou Tomás, tentando forçar uma expressão de admiração, embora a dor o dominasse completamente. – “Estás a mudar de hábitos...”
“Estava curioso para conhecer a Biblioteca por dentro e decidi entrar para ler um jornal durante o intervalo do almoço mas, afinal, não li jornal nenhum porque acabei por conhecer uma jornalista.”
“Ah sim? Ainda bem que te estás a divertir!”
Por fim, como se desligasse o motor do entusiasmo, Vítor perguntou:
“E tu?”
Nesse instante, Tomás sentiu o maior dos espinhos trespassar-lhe a alma. Respirou fundo, lançou um olhar através da janela da sala na direcção do céu nocturno e procurou sabedoria na lua cheia que pairava sobre os prédios.
Seis meses antes, Tomás ainda vivia na Alemanha, numa cidade pequena e simpática, onde morou durante dez anos. Foi lá que estudou e se tornou economista diplomado e onde, mais tarde, veio a trabalhar, durante cinco anos, numa multinacional especializada em consultoria financeira. As coisas começaram a ficar menos sorridentes quando a divisão da empresa onde trabalhava foi adquirida inesperadamente por outra multinacional, o que gerou a inevitável reestruturação e vários despedimentos. Tomás foi um dos dispensados e acabou por regressar a Portugal depois de não ter conseguido arranjar outro emprego na Alemanha. Eventualmente, a decisão de voltar para o Porto acabou por se afigurar inevitável para não deixar desabar as suas finanças particulares. Os pais dispunham de um apartamento, convenientemente mobilado mas desabitado e foi para lá que se mudou. No entanto, desde a mudança, tudo lhe desinteressava no seu país. Durante o tempo que vivera na Alemanha, Tomás havia-se familiarizado com uma realidade onde podia encontrar, com facilidade, novas culturas e falar línguas diferentes. Em Portugal, sentia que se abatera sobre o seu mundo uma gigantesca cortina de ferro que limitava as suas acções e as suas ideias. Parecia que lhe estavam vedados os mesmos hábitos e a mesma vida que tinha antes e, em vez de novas culturas e novas experiências, via-se condenado a voltar atrás no tempo e a esquecer aos poucos os dez anos da sua vida na Alemanha, já que ninguém parecia interessar-se por isso em nenhuma conversa. Após vários meses em Portugal, em que não conseguiu sequer um bom emprego, Tomás viu as suas perspectivas de futuro tornarem-se tristes e sombrias e sentia-se à beira da depressão. Aliás, já contemplava a entrada nesse mundo sombrio, tentando fazer todos os esforços possíveis para não cair totalmente nele. Havia perdido toda a motivação para cultivar as amizades uma vez que, na maioria dos casos, os amigos só queriam falar do que ele deixara para trás em Portugal, ou então, falavam entusiasmados sobre os seus empregos, o que acabava por deixá-lo mais deprimido ao trazer à tona o facto de não ter um emprego. Tentava não falar dos seus problemas com ninguém, a não ser com Maria, porque sabia que de nada serviria lamentar-se e achava que tinha de ser ele sozinho a reagir, de alguma forma. Além disso, Maria conhecia-o bem e jamais o censurava. Nos últimos seis meses, Tomás parara de procurar emprego em Portugal e passou a procurá-lo unicamente no estrangeiro.
Nas ocasiões em que se sentia mais frágil, pensava nas palavras do brilhante actor Tom Hanks no filme O Náufrago que vira recentemente: Amanhã o sol vai brilhar de novo e quem sabe o que vai trazer a maré?
Capítulo 5
Publicada por
Gonçalo Coelho
