“Estou fazendo uma matéria sobre a cidade de São Francisco para a minha revista, lá em Curitiba, em particular sobre os vinhos da Califórnia e um pouco também sobre os pontos turísticos e cultura local.”
“Hmm...Conheço algumas pessoas importantes que trabalham na indústria vinícola. Talvez lhas possa apresentar se isso ajudar o seu trabalho.” – disse Vítor.
“Isso seria óptimo.”
O No Man’s an Island, assim se chamava o café, possuía uma decoração moderna e uma suave música de fundo. Vítor e Mara conversaram animadamente, encetando o género de diálogo típico de duas pessoas de nacionalidades diferentes que acabam de se conhecer. Ocupavam uma mesa à janela, com uma simpática vista para o frenesim do movimento urbano e para uma série de estabelecimentos comerciais e painéis publicitários que coloriam a Market Street, uma das principais artérias da cidade e a diagonal que atravessa o coração de São Francisco, basicamente dividindo a cidade em dois como um rio, ao longo de vários quilómetros. Vítor explicou como surgira o seu negócio em São Francisco e como conhecera o seu sócio, quando ainda estava em Portugal. Explicou também um pouco do seu próprio negócio que consistia na representação comercial de algumas das principais empresas portuguesas fabricantes de rolhas de cortiça, no mercado californiano de vinhos, espumantes e licores. A região de Napa Valley situada a poucos quilómetros da cidade de São Francisco era, como Vítor referiu, o seu principal palco de acção visto ser uma referência mundial na indústria vinícola. Sentindo o interesse de Mara, Vítor mencionou algumas empresas e os nomes de alguns dos melhores e mais famosos vinhos da Califórnia comparando-os, ocasionalmente, com vinhos europeus e, em particular, com alguns vinhos portugueses que começara, recentemente, a representar.
No decorrer da conversa, encorajado pelos bonitos olhos de Mara, Vítor resolveu convidá-la para uma visita a Napa Valley na semana seguinte, altura em que iria visitar alguns clientes. A experiência ensinara-o a medir os benefícios e os prejuízos das suas acções e procurava, nesta situação, juntar o útil ao agradável. Ao levar Mara consigo, uma jornalista que poderia trazer óptima publicidade, Vítor sabia que cairia nas boas graças dos clientes e estaria também no caminho certo para realizar bons negócios. Tudo se conjugava da melhor forma como podia divisar-se na sua expressão luminosa e bem-humorada.
“Porque não me fala um pouco de si?” - sugeriu Vítor, tentando colocar de lado os assuntos profissionais.
Foi a vez de Mara se apresentar mais detalhadamente.
“Sou brasileira. O meu avô era índio, o pai da minha mãe. Por isso tenho esses traços índios. Sou jornalista, como lhe disse, e...”
Vítor escutava-a com atenção, tal como ela o havia escutado a ele. Enquanto a brasileira falava, Vítor observou melhor o seu rosto que denotava uma expressão doce e meiga mas que, ao falar de trabalho, se tornou mais séria e concentrada. Os seus olhos expressivos, revelavam uma especial paixão pelo jornalismo. Vítor apercebera-se desse facto rapidamente. Notara que Mara era feliz no seu trabalho porque se sentia realizada profissional e pessoalmente. Fazia o que realmente gostava. Aparentava ser daquelas pessoas que, quando terminava um dia de trabalho e ainda discutia assuntos relacionados com ele, esse facto devia-se à paixão que nutria pelo que fazia. Vítor, por seu lado, também era feliz no seu trabalho, na medida em que atingisse os objectivos que delineara, fosse sob a forma do volume de vendas que alcançava e dos ganhos financeiros que isso lhe proporcionava ou das parcerias que estabelecia e que dariam frutos a médio ou longo prazo. Servia-se desses ganhos para, essencialmente, viver fora do trabalho. Por isso, quando o serviço terminava, não queria falar mais sobre o assunto. Quando o horário de expediente terminava e ele ainda estava a falar de trabalho, ainda estava a trabalhar e só ele sabia como essas horas extraordinárias eram preciosas para o seu sucesso.
