Neste blogue pode ler os primeiros capítulos deste romance.

Capítulo 2

O que será que nos leva a entrar em lugares que, muitas vezes, não condizem com os nossos gostos nem com os nossos hábitos? Uma interessante característica comum a todos os humanos: a curiosidade. Sem ela o homem perderia uma parte substancial da sua essência. O principal motor da evolução. Vítor acaba de entrar na imponente biblioteca principal do Sistema Público Bibliotecário de São Francisco, situada na Larkin Street e no coração do Civic Center. Ao redor da Civic Center Plaza, erguem-se também o City Hall (vistoso edifício sede dos serviços administrativos de toda a cidade que possui uma bonita cúpula ornamentada construída à imagem do edifíco Les Invalides em Paris), o Museu de Artes Asiáticas e o Supremo Tribunal da Califórnia. Vítor já por diversas ocasiões, passou junto à porta da biblioteca, admirou a fachada mas não entrou; desta vez, porém, a curiosidade acabou por vencê-lo.
No interior do edifício, um grande número de pessoas caminhava de forma ordenada e silenciosa pelos corredores, procurando preciosas informações, indagando as últimas notícias nas inúmeras revistas e jornais ou, simplesmente, em busca de um bom romance que fizesse a mente descobrir um espaço novo, sonho, muito para lá daquele lugar forrado a estantes de livros. Era hora de almoço. Como ninguém supervisionava o seu horário de trabalho, nem o seu método, Vítor, com a firme intenção de se auto-disciplinar, impôs a si próprio um intervalo entre a uma e as duas e trinta da tarde. Consultou o relógio de pulso, cujos ponteiros lhe indicavam poucos minutos depois da uma hora e trinta. Resolveu utilizar o tempo de que ainda dispunha para conhecer a colecção de revistas e jornais da Biblioteca. Deambularia por ali até às duas e quinze e, depois disso, dirigir-se-ia, tranquilamente, para o escritório. Em passo lento pelos corredores, Vítor reparou num livro pousado sobre uma mesa cujo título chamou a sua atenção por fazer referência ao Brasil. Era um Insight Guide com as Cataratas do Iguaçu na capa. Uma das suas grandes paixões era viajar e havia já algum tempo que Vítor encarava o Brasil como destino de eleição pelas magníficas praias e outras exuberantes belezas naturais. Mirando o livro como um felino perante a sua presa, caminhou até ele e ao procurar pegar-lhe, subitamente notou que outra mão tentava pegar no mesmo volume. Ergueu o olhar e sorriu. Distinguiu diante de si uma atraente mulher, jovem, morena, de olhos cor de mel, cabelo de tons claros, a cair pelos ombros. As linhas do seu rosto tinham algo de simultâneamente exótico e europeu. A jovem retribuiu o sorriso com expressão jovial.
“I’m sorry. It seems we both want to go to Brazil!”[1] – disse Vítor, esboçando um leve sorriso.
“Some things aren’t really what they seem, you know? I was just curious to know what the book says about my country.”[2] – replicou a jovem.
“So, you’re Brazilian?”[3]
“Yes, I am.”[4]
“Então podemos falar em português, porque sou português.” – declarou Vítor, mudando subitamente para a língua portuguesa e notando a súbita perplexidade da bonita jovem. – ”Ia pegar nesse livro porque estou a planear uma viagem ao Brasil. De que parte do Brasil é que você é?”.
“Curitiba, Paraná.”
“É uma cidade bonita para visitar?”
“É uma cidade óptima para se morar e muito interessante também para se visitar mas, geralmente, os turistas preferem outros destinos como as praias do Nordeste, a Floresta Amazónica, ou as Cataratas do Iguaçu que ficam a seiscentos quilómetros de Curitiba. Aposto que esse livro fala mais desses lugares, mesmo.” – disse a jovem, apontando para o livro sobre a mesa. – “Curitiba é uma cidade grande com cerca de três milhões de habitantes. A praia fica a uns cem quilómetros, no mínimo, mas a cidade tem um simpático centro histórico, muitos parques, teatros, cinemas e é considerada uma das cidades brasileiras com melhor qualidade de vida. Mais para Sul, a 300 quilómetros de Curitiba, você tem Florianópolis e todas as belíssimas praias do Estado de Santa Catarina.”
De relance, Vítor observou o relógio de pulso da brasileira e apercebeu-se que já eram quase duas horas da tarde. Mesmo assim, não foi capaz de resistir a um impulso.“Gostaria de tomar um café, aqui perto? Seria uma excelente oportunidade para conhecer um pouco mais sobre o Brasil e sobre essa região no Sul. Além disso, poderá contar-me o que a traz a São Francisco. É sempre bom poder falar com alguém em português, aqui nos Estados Unidos. Conheço um excelente café, aqui bem perto...”
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[1] Desculpe. Parece que ambos queremos ir para o Brasil!
[2] Algumas coisas não são bem aquilo que parecem, sabe? Estava simplesmente curiosa para saber o que diz o livro acerca do meu país.
[3] Então você é brasileira?
[4] Sim, sou.